
Depois da insatisfação de Israel com o memorando assinado pelos Estados Unidos e pelo Irã para encerrar a guerra contra o regime islâmico iniciada em 28 de fevereiro, os governos do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, e do presidente americano, Donald Trump, têm um novo foco de atrito: a Turquia, que sedia até esta quarta-feira (8) a cúpula de 2026 da Otan.
Nesta terça-feira (7), em reunião bilateral com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, Trump afirmou que decidirá em breve se venderá caças F-35 para a Turquia, depois de o negócio ter sido vetado pelos Estados Unidos em 2019 porque Ancara havia comprado um sistema de defesa aérea S-400 da Rússia.
A possibilidade dessa negociação se concretizar causa preocupação em Israel: em entrevista à emissora CNN, Netanyahu disse que o governo Erdogan é “um regime contaminado pela [organização radical] Irmandade Muçulmana, que odeia os Estados Unidos”, e que a possível venda dos F-35 “não faz da Turquia um Estado aliado dos Estados Unidos”.
“Ele [Erdogan] não é exatamente um aliado exemplar dos Estados Unidos”, disse o premiê de Israel. “Ele ameaça destruir o meu país, o único Estado judeu.”
Os governos da Turquia e israelense trocam farpas desde o início da guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza, em outubro de 2023 (conflito atualmente em cessar-fogo).
Ancara pediu para aderir a uma ação da África do Sul na Corte Internacional de Justiça (CIJ), em Haia, na Holanda, que investiga acusações de genocídio na ofensiva de Israel em Gaza, e enviou uma carta às Nações Unidas para solicitar a imposição de um embargo internacional de armas a Israel.
Além disso, Erdogan comparou Netanyahu a Adolf Hitler e cortou o comércio entre os dois países.
Em novembro de 2025, a Procuradoria-Geral de Istambul emitiu mandados de prisão contra 37 pessoas de Israel, incluindo Netanyahu, sob acusações de genocídio e crimes contra a humanidade na guerra em Gaza.
Antes da cúpula da Otan, as tensões voltaram a crescer. No final de junho, durante um evento em Jerusalém, o ministro israelense de Assuntos da Diáspora, Amichai Chikli, afirmou que “a Turquia de Erdogan e a Síria de [Ahmed] al-Sharaa são agora muito mais preocupantes do que o Irã”.
“A era do império xiita do Irã, da Síria de [Bashar al-]Assad e do Hezbollah chegou ao fim. O novo eixo é o eixo da Irmandade Muçulmana, composto pela Turquia de Erdogan, pela Síria e pelo Catar”, disse Chikli na ocasião.
Dias depois dessas declarações, Israel reconheceu como genocídio os massacres do povo armênio perpetrados pelos otomanos em 1915, o que revoltou a Turquia.
Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores turco, Hakan Fidan, elevou ainda mais a retórica, ao afirmar que Israel se tornou um “fardo que a humanidade não pode mais suportar”.
Em artigo publicado nesta terça-feira, Jose Lev Alvarez Gomez, colunista do jornal The Times of Israel, disse que as declarações de Ancara contra os israelenses “não são apenas birra”.
“É a linguagem de um líder [Erdogan] que constrói um eixo pan-sunita liderado pela Irmandade Muçulmana, por meio da infraestrutura do Hamas em Istambul e forças por procuração que vão da Líbia à Síria”, escreveu Gomez, que serviu nas Forças de Defesa de Israel (FDI) e no Exército dos EUA.
“O Irã recorreu ao terrorismo sectário e à coerção. Erdogan exporta um modelo genocida capaz de, mais uma vez, reordenar o Oriente Médio contra Israel. Com o poder iraniano debilitado, Ancara corre para preencher o vácuo”, acrescentou o especialista, que afirmou que “Trump precisa parar de fingir que laços mais estreitos com o ‘sultão’ Erdogan atendem aos interesses americanos”.