O Brasil registrou 42.590 homicídios em 2024, atingindo a taxa de 20,1 mortes por 100 mil habitantes. Os dados constam do Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira (26) pelo Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O resultado aponta uma queda de 7,4% em relação a 2023, consolidando o menor patamar da série, iniciada em 2014.
Apesar da queda significativa nas mortes, o pesquisador do Ipea Daniel Ricardo de Castro Cerqueira demonstra cautela ao avaliar os números:
“O país passa por uma transição com a redução histórica de homicídios, mas, ainda assim, um aumento da sensação de insegurança da população e também a calcificação de violências contra grupos sociais minoritários. Em alguns casos, a gente vê até o recrudescimento de determinadas violências, a despeito dessa queda dos homicídios no Brasil.”
O relatório destaca ainda o aumento das mortes violentas por causa indeterminada — categoria que pode ocultar homicídios não classificados oficialmente.
Redução não homogênea
A redução das mortes no Atlas da Violência não foi homogênea entre as regiões do país. Enquanto as maiores quedas das taxas de homicídio em relação ao ano anterior ocorreram em São Paulo, Santa Catarina e no Distrito Federal. As maiores altas foram verificadas no Amapá, na Bahia, em Pernambuco, em Alagoas e no Ceará. A publicação revela ainda que as regiões Norte e Nordeste enfrentam processos mais intensos de expansão das facções criminosas, conflitos territoriais e fragilidade da infraestrutura estatal de segurança pública.
Crianças e adolescentes
O levantamento alerta que crianças e adolescentes frequentemente sofrem ciclos de violência não letal antes de desfechos mais graves. O crescimento das notificações de violência sexual é um dos dados mais alarmantes, segundo o pesquisador Daniel Cerqueira:
“O que esses dados nos trazem? Eles nos trazem a tragédia do Brasil. Porque aquela criança que sofre essa violência – muitas vezes a criança foi estuprada – é uma criança que chega na escola sem condições de aprendizado, com dificuldade de sociabilidade, que vai ser vítima e que vai ser presa fácil do crime organizado e desorganizado. E o dado que para mim é mais chocante: dois terços das violências acontecem dentro do lar. A residência, que deveria ser o local primordial de desenvolvimento infantil, de proteção àquela criança e adolescente, é exatamente ali em que a criança já começa a ter o seu futuro perdido.”
Na primeira infância (0 a 4 anos), os registros de violência sexual cresceram mais de quatro vezes em uma década, saltando de 1.671 casos, em 2014, para 7.845, em 2024.
Os dados indicam também uma alta incidência de agressões no ambiente doméstico, com 79,9% dos casos ocorrendo na residência da vítima; além da alta taxa de reincidência, visto que 66,2% das mulheres acolhidas pela rede de saúde relatam múltiplos episódios de violência no mesmo ano.
Pessoas negras morrem mais
No recorte por raça ou cor, 32.820 homicídios de pessoas negras foram registrados em 2024, o que equivale a 77% das vítimas. Outro dado significativo é que a violência letal persiste entre mulheres negras, uma taxa 66,7% superior à de mulheres não negras.
*Com reportagem de Solimar Luz