Eu descobri um lugar agora em Roma que só os romanos mesmo vão. Não tem turista. A comida é romana mesmo, tradicional. Um lugar realmente fora do circuito. Acredita em mim?
Todo mundo que viaja já recebeu uma dica assim. “Olha, eu achei um restaurante onde turista não vai”. Nas sempre imprevisíveis narrativas que contamos de nossas viagens, geralmente soltamos uma dessas, mesmo sem querer.
Eu sempre ironizei esse tipo de atitude, pelo simples fato de que quem manda um clichê desses invariavelmente se esquece que também é um turista. Saiu de casa com uma mala ou mochila e um bilhete na mão? Desculpe, você está cometendo o mesmo crime do objeto da sua crítica.
Essa ironia dos viajantes mais esnobes voltou a ocupar meu pensamento depois desta última viagem a Roma. Por lá, ouvi dicas de lugares não-turísticos num nível que beirava o cômico.
Certamente, pelas hordas de visitantes que circulam pela capital italiana, fantasiar sobre lugares secretos, que ainda não foram escancarados por turistas predadores ou banalizado nas mídias socias é quase uma obsessão. E também um exercício tolo.
Eu não visitava Roma desde 2015, e talvez tenha me esquecido o quão bonita é a cidade. Aliás, é estupenda. Mais de uma vez me encantei com um detalhe inesperado numa esquina que, mesmo abarrotada de gente, me transportava à ideia de uma beleza suprema.
Por isso mesmo existem pontos turísticos obrigatórios que valem a pena visitar mesmo que não seja sua primeira vez por lá. Mas quando se trata de comprar ou comer alguma coisa, a busca por um lugar que não seja turístico vira quase um esporte radical.
Claro que ninguém quer pagar caro por um carbonara fajuto, mas a maioria dos restaurantes na região do centro histórico oferecem um cardápio bem honesto. As arapucas são evidentes até para aqueles turistas mais distraídos. O resto é, no mínimo, prazeroso.
Não obstante, a fascinação com o lugar onde não tem turista persevera em cada esquina, por exemplo, do Trastevere, um lugar que dificilmente poderíamos chamar de secreto e que, nem por isso, tem opções gastronômicas maravilhosas. E posso provar: a pizza do L’Elementale é uma das melhores que comi na minha vida —e eu moro em São Paulo meu! E o sorvete da Otaleg merece o título de patrimônio romano.
Eu sugiro sempre que você deixe essa bobagem de lado e viaje desfrutando tanto dos lugares turísticos mais procurados quanto daqueles menos conhecidos que a gente descobre sem querer. Você sempre será um turista. Relaxe.
Dito isso, o que disse no começo do texto é a mais pura verdade. Juro. Uma amiga “italioca”, com um pé no Rio e outro em Roma, me levou no último dia da viagem à Osteria Bonelli. Meia hora de Uber e eu estava numa mesa na calçada, comendo caramelo de provolone, fiori de zucca empanada e saltimboca alla romana como se meu nome de batismo fosse Giuseppe.
Ria dos trocadilhos em italiano do garçom sem entender uma palavra, trocava olhares que não davam em nada com locais de outras mesas, gesticulava mais que um arlequim de commedia dell’arte. Comi, bebi e me diverti, talvez sem me lembrar que era turista. Mas era. E se estava cercado de colegas viajantes ou nativos da própria Roma, sinceramente, não fez a menor diferença.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.