Riscos psicossociais entram na pauta das empresas: elas estão preparadas para essa nova realidade?

Os riscos psicossociais são os fatores presentes no ambiente de trabalho que afetam o bem-estar mental, emocional e social dos trabalhadores
Imagem Ilustrativa
Imagem Ilustrativa

  • Prof. Dr. Edy Carlos Santos de Lima, Profa. Ma. Lieny Munhoz Martins e Profa. Esp. Rafaelle Lopes Lemes do Prado

A partir de 26 de maio de 2026, as empresas brasileiras passam a enfrentar um novo e relevante desafio: incluir a avaliação dos riscos psicossociais em seus processos de Segurança e Saúde no Trabalho (SST). A exigência decorre da atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), promovida pelo Ministério do Trabalho e Emprego em agosto de 2024.

Os riscos psicossociais são os fatores presentes no ambiente de trabalho que afetam o bem-estar mental, emocional e social dos trabalhadores. Mais do que uma simples adequação normativa, essa mudança representa uma virada de chave na forma como o trabalho é compreendido dentro das organizações.

Se antes a preocupação estava concentrada em riscos físicos, químicos e ergonômicos, agora o olhar se amplia para dimensões muitas vezes invisíveis, mas profundamente impactantes: estresse, assédio moral ou sexual, sobrecarga de trabalho, falta de feedback estruturado, falta de autonomia, expectativas organizacionais indefinidas, metas irreais, falta de pausas adequadas, ausência de suporte, pressão por resultados, pouca participação nas decisões e rigidez organizacional.

Diferente dos riscos físicos ou químicos, os riscos psicossociais surgem da organização, da cultura e das relações no trabalho. Antes, os processos de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) focavam nos riscos “palpáveis” e “visíveis” presentes nas organizações, como os produtos químicos com os quais o colaborador tem contato durante a jornada de trabalho, os locais e forma de trabalho insalubres por questões ambientais. Nesse sentido, o cuidado era voltado para os impactos biológicos que esses riscos poderiam causar ao trabalhador.

Porém, esse olhar cuidadoso para a saúde física não vinha suprindo uma realidade complexa e intangível, que é o adoecimento emocional do trabalhador, já que o local de trabalho é onde muitas vezes o funcionário fica a maior parte do seu tempo.

A falta de cuidado para essas questões organizacionais que impactam diretamente a saúde emocional foi gerando grandes consequência na estruturação, organização e resultados das empresas, bem como na saúde mental dos colaboradores.

A pergunta que surge é direta e necessária: as empresas estão preparadas para lidar com isso?

A nova NR-1 exige que as organizações passem a:

– identificar riscos psicossociais no ambiente de trabalho;

– avaliar impactos sobre a saúde mental dos colaboradores;

– implementar medidas de prevenção e controle;

– integrar esses fatores ao Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO).

Portanto, não se trata mais de uma recomendação, é obrigação legal. No entanto,nota-se que, apesar da relevância do tema, a realidade mostra que grande parte das empresas brasileiras ainda não está preparada para essa mudança. Isso ocorre por alguns fatores críticos, como:

1. Cultura organizacional ainda tradicional, na qual se identifica que muitas empresas ainda operam sob modelos de gestão focados exclusivamente em produtividade e resultado, negligenciando o fator humano.

2. Dificuldade de mensuração, ou seja, os riscos psicossociais são subjetivos. Diferente de um ruído ou de um agente químico, eles exigem instrumentos mais sofisticados, como pesquisas de clima, escuta ativa e indicadores comportamentais.

3. Déficit de capacitação de proprietários e lideranças: constata-se que parcela significativa dos gestores não possui formação adequada para lidar com questões relacionadas à saúde mental no ambiente de trabalho, o que revela uma lacuna estrutural entre as exigências legais e sua efetiva operacionalização no contexto organizacional

É importante enfatizar que a inclusão dos riscos psicossociais não deve ser vista apenas como custo ou obrigação. Ela traz impactos significativos e estratégicos.

Impactos negativos (se essa inclusão for mal gerida):

– Aumento de passivos trabalhistas;

– Multas e penalidades legais;

– Queda de produtividade;

– Afastamentos por doenças ocupacionais (como burnout);

– Absenteísmo e alta rotatividade de colaboradores;

– Dificuldade na interação entre equipes.

Impactos positivos (se bem implementada):

– Melhoria do clima organizacional;

– Aumento do engajamento e retenção de talentos;

– Redução de absenteísmo e turnover;

– Fortalecimento da imagem institucional;

– Colaboradores mais motivados e com isso, mais metas organizacionais alcançadas;

– Empresas que compreenderem essa mudança como oportunidade estratégica sairão na frente.

Portanto, essa transformação exige uma revisão profunda no modelo de gestão. Não basta cumprir a norma. Será necessário:

– Desenvolver lideranças mais humanas e empáticas;

– Criar canais reais de escuta organizacional;

– Investir em saúde mental corporativa;

– Promover ambientes de trabalho psicologicamente seguros.

Em outras palavras, estamos diante de uma transição de um modelo centrado no controle para um modelo centrado no cuidado.

Assim como observado em outras transformações organizacionais, as instituições de ensino têm papel estratégico nesse processo.

Cursos na área de gestão e de psicologia, como os ofertados pelas Faculdades de Tecnologia e pelos Centro Universitários, precisam preparar profissionais capazes de:

– Compreender o comportamento humano nas organizações;

– Integrar gestão e saúde mental;

– Tomar decisões baseadas em indicadores não apenas econômicos, mas também sociais.

A atualização da NR-1 não deve ser interpretada apenas como mais uma exigência burocrática. Ela reflete uma mudança mais ampla, trazendo o reconhecimento de que não existe produtividade sustentável sem saúde mental.

Empresas que ignorarem essa realidade correm riscos, não apenas legais, mas também estratégicos.

Por outro lado, aquelas que se anteciparem e incorporarem essa nova lógica estarão mais preparadas para um mercado cada vez mais exigente, humano e consciente.

No fim, a questão não é apenas se as empresas estão preparadas.

A verdadeira pergunta é: elas estão dispostas a mudar?

  • Prof. Dr. Edy Carlos Santos de Lima (Administrador. Coordenador e Professor do Curso de Gestão Empresarial – Fatec Jales. Pós-doutorando em Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente – UNIARA)
  • Profa. Ma. Lieny Munhoz Martins (Psicóloga. Coordenadora e Professora do Curso de Psicologia – UNIJALES. Mestra em Educação – UEMS)
  • Profa. Esp. Rafaelle Lopes  Lemes do Prado (Psicóloga (Esp. em Neurociência e Comportamento) e Professora do Curso de Psicologia – UNIJALES)

Últimas notícias

... O conteúdo do CN12 está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente do CN12 vivo e acessível a todos. A republicação é gratuita desde que citada a fonte.