- Por Celia Regina Lara
Essa frase do título é uma das mensagens dos adesivos oferecidos pelo Instituto Janeiro Branco e achei perfeita. Mas porque precisamos falar de saúde mental?

O Movimento social “Janeiro Branco” existe desde 2014, ou seja, há 12 anos. E de lá para cá, a ação vem no sentido de quebrar tabus, mostrar às pessoas que o sofrimento delas não diminui se for escondido, se não for tratado e, que não há vergonha em se passar por sofrimento mental.
Quando falamos em saúde mental, estamos falando em um campo vastíssimo de possibilidades. Há situações onde de fato não se consegue fingir ou esconder que algo não vai bem, que atingiu um nível tal insuportável que salta aos olhos. Por outro lado, isso pode ser a ponta do iceberg, porque todos nós estamos sujeitos a perder nossa saúde mental em determinado momento da vida.
Hoje estamos felizes e, de repente, perdemos alguém que amamos. Ou estamos desfrutando de boa saúde e, subitamente, surge uma doença. Somos jovens e pouco a pouco envelhecemos e nosso mundo tão previsível e cheio de energia, subitamente se transfigura e assim vai.
Às vezes, nada de novo aconteceu, mas aquelas gotinhas diárias que caem em nosso copo imaginário, de modo inesperado, transbordam e nos levam a um estresse incontrolável. E começamos a nos sentir estranhos, com taquicardia, suando sem motivo aparente, sem conseguir dormir como antes. As coisas perdem a graça, não queremos mais a companhia das pessoas e sentimos uma tristeza inexplicável, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer conosco. Choro, choro escondido no travesseiro para que o parceiro ou filhos não percebam. Nos sentimos tolos, inadequados ou fora da realidade.
Quando esses acontecimentos da vida ocorrem, muitos de nós somos impactados pelas transformações, pelo desconforto, pelo desequilíbrio e pela sensação de falta de propósito. Nem sempre conseguimos identificar esses sentimentos e sensações imediatamente; na verdade, muitas vezes os ignoramos ou os negamos.
Negamos a verdade para os outros, para nossa família e, principalmente, para nós mesmos. É como se aceitássemos que não estamos bem, o que nos faz sentir menos perfeitos do que acreditamos ser, temendo que não seremos mais amados ou que perderemos a razão. Nos refugiamos no nosso mundinho, no nosso celular, tentando encontrar o conforto perdido.
Esse processo de isolamento e, por que não dizer, de alienação nas redes digitais frequentemente proporciona um alívio temporário. No entanto, dependendo da situação, acabamos nos isolando e nos afundando emocionalmente cada vez mais. Para o mundo digital, estamos ótimos, felizes e sorridentes (postamos fotos para comprovar isso); tudo parece perfeito. Porém internamente estamos tristes, deprimidos e infelizmente, muitas vezes recorremos à automedicação ou buscamos alívio em comportamentos destrutivos, como o consumo de álcool e outras drogas.
Existem pessoas que passam anos fazendo isso, até que aquele boleto chega, cobrando todos nossos excessos e falta de autocuidados.
Se você não se impressiona com o que relatei acima, talvez precise conhecer um pouco os números que representam tudo isso, pois todo esse contexto, que não é simples, vai desembocar em casos de afastamento médico do trabalho (a perda de produtividade chega a 1 trilhão por ano, segundo a OMS 2022. O Brasil é o segundo pais com mais afastamentos por esgotamento mental no trabalho, conhecido como Burnout), desintegração de famílias, pois as situações não resolvidas afetam toda a família e em última análise, no SUS, sistema único de saúde, pois o que é mental não fica só no mental. Uma mente que adoece, adoece também seu corpo (assim como o oposto também pode ser verdadeiro).
Segundo a pesquisa Ipsos Health Service Monitor, 54% dos brasileiros consideram a saúde mental o maior problema de saúde do país, percentual acima até de doenças como câncer. A despeito disso, muitas pessoas só prestam atenção aos sinais quando a intensidade dos sintomas ganha uma proporção enorme.
É por tudo isso que a mobilização de conscientização do “Janeiro Branco” é tão importante. É por você e por mim, é por sua família e pela minha. Ninguém é imune. O que nos traz imunidade é o cuidado, o olhar atendo não só a nós, mas à toda nossa família, às crianças, aos nossos idosos que são cada vez mais impactados por um mundo que mudou demais, se tornando desconhecido para muitos deles (isolamento, falta de participação real na família, falta de pertencimento).
Esse pequeno artigo não esgota o assunto, minha intenção é despertar em você a curiosidade. Felizmente há muita informação e entidades confiáveis preocupadas em fazer chegar a todos, os conhecimentos necessários para que você entenda que não está sozinho. Busque ajuda, não se cale.
Acesse https://janeirobranco.org.br/ . Lembre-se: Saúde mental deve ser de janeiro a janeiro!
- Celia Regina Lara (Psicóloga formada pela USF com pós graduação em Gestão de pessoas e experiência em RH estratégico, formação e desenvolvimento de talentos)